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Mudei o endereço para um local mais arejado e com mais recursos. Este blog aqui, no entanto, continuará a flutuar no cyber espaço, com os comentários de seus doces leitores, até que o indefinido deseje apagá-lo.
Escrito por Cássia Fernandes às 00h11
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Sinistras
Torço para que uma pobre alma não tenha tomado
por cobiça
aquela écharpe.
Temo menos por mim do que pelo pobre pescoço
que, engasgado de frio,
se atreva a usá-la,
riscando no rosto
a marca sinistra do Zorro!
Ela é um pedaço de mim em Paris.
E emparedada em Paris, tive sonhos terríveis com forcas.
Mãos que amavam com tamanha força.
Portas que se cerravam, sem deixar passar frio
e um mísero sopro
de vida ou de sopa.
Fossos profundos.
Túmulos para enterrar vivos os próprios filhos.
Donzelas de ferro, cozidas em vinho.
Calabouços.
Aquela écharpe não fará a ninguém belo ou livre
E, esvoaçante,
dará sempre um aviso
aos navegantes:
âncora à vista!
Aquela écharpe, antes de mim,
pertenceu
a Isadora Duncan!
Escrito por Cássia Fernandes às 21h08
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Pacote completo
Quando a gente ama, compra o pacote completo: o bilhete de ida e sem volta, a ex-sogra, o mau hálito quando acorda, o mau humor o mau amor.
A gente ama, a gente compra o pacote com tudo o que vem dentro: um trem, uma família, um cachorro, um papagaio, um sofrimento. O feijão com caruncho, a pedra... A gente quase quebra um dente quando morde.
A gente não pode comprar uma meia meia, uma meia sola, só o seio esquerdo e deixar na loja uma só alça do sutiã meia taça. Comer só o miolo do pão e do sonho de valsa; a laranja e a couve; e fingir que não houve nem escravidão, nem fome, nem chicotada, nem o pé de porco na feijoada.
O amor não se vende avulso nem picado, para um pé atrás, de um só lado. Se bem que é bem preciso começar com o pé direito, dar ao menos um braço a torcer e de vez em quando estender a roupa no arame e a outra face.
Porque a qualidade e o defeito são irmãos siameses. E o cachorro se senta sobre o próprio rabo. Bicho de goiaba é goiaba, exceto para quem está de barriga lotada.
Quando a gente ama, não pode escolher se tem aleijão ou se é perfeito. Tem que aceitar a barriga, a remela, o cabelo de nego, o presente de grego, a mão em que sobra ou falta um dedo, e que é a pimenta da vida e que dá tempero à comida.
Não há amor que se vende a granel, como fiado só no armazém ao lado. E se é verdade que a galinha da vizinha é sempre mais gostosa e mais gordinha, é verdade também que não se faz omelete sem quebrar uns ovos chocos e que todo ofício, mesmo o de você me comer e de eu comer você tem seus ossos.
Escrito por Cássia Fernandes às 23h57
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POEMA DATADO DE 1779
Este dia me fez mal e olhe que mal começou. Me fez mal porque bem me fez e é assim o paradoxo das boas coisas. Revolvem e perturbam na sua pouca duração.
Antes mesmo, ontem, quando ainda era noite, o vento já soprava diferente, uivante, ancestral, anterior ao tempo. Fazia tilintar os cristais e bater as portas. O vidro da porta de vidro gemia um barulho estranho. Alguém que teimava em abrir. Ele resistia na sua fragilidade material de vidro.
Quando amanheceu, logo vi que esse dia trazia algo de perturbador. O clima agradável, frio, tão diferente desse excesso de luz que no cerrado deforma as coisas e nos faz exibir uma sensualidade suarenta, incompatível com a vida delicada e sombreada do espírito.
Resolvi andar pelas ruas do Centro. Descia a Avenida Goiás para sofrer um pouco mais com a nostalgia do que não vivi ou do que vivi, embora com certeza não suficientemente. Ia me encontrar com Paulo Galvez num café da Rua 4. Descia lembrando de quando andava perdida na Champs Elisée, tomada pelo excesso de beleza, desesperada por não ter com quem compartilhá-la. Ia sentindo o que Paulo bem traduz, citando Mário Quintana:
Sempre que chove Tudo faz tanto tempo... E qualquer poema que acaso eu escreva Vem sempre datado de 1779!
E voltei porque um rapaz lisonjeiro exclamou: Que muié mais filé!
Estou de volta a Goiânia. Estou. Mas novamente com aquele desespero. “E todos os dias o aeroporto em frente me dá lições de partir”.
O rapaz que assomou à janela me devolveu felizmente à irrealidade. Em Paris, gostava de olhar para as janelas iluminadas das casas, onde havia sempre vultos de pessoas em festas para as quais eu não tinha sido convidada. E Paulo sentou-se à mesa no momento mesmo em que eu imergia por completo. E salvou-me. Ou pusemos, mais uma vez, todo o presente a perder.
Escrito por Cássia Fernandes às 20h12
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Um outro desfecho para CAMISA DE VÊNUS
Um amor que sai elegantemente à francesa, quando ele chega, com a confiança no dedo e o ar de que está na sua barriga E ele está E eu, ocupado em contar, depositado nos bancos, redendo nos fundos dos preservativos.
Escrito por Cássia Fernandes às 21h30
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CAMISA DE VÊNUS
Te conhecer me fez ver que chego atrasada sempre e que meu amor por você nasceu sol poente, história contada de trás pra frente, só a frase final escrita por véus e por doídos (E foram felizes...) parênteses.
Te conhecer me fez aprender coisas terríveis sobre a vida, aos tantos anos finalmente saber que não adianta dar birra, voltas ou vírgulas.
Um amor de reticência esse, mas que não tende ao infinito, de quem olha de debaixo da mesa, um olhar de despeito, impotência e saliva.
Um amor que sai elegantemente à francesa, quando ela chega com a confiança no dedo e o ar de quem tem você na barriga.
E ela tem e apenas ao medo do amanhã sombrio E eu, só esse amor de meu: o ventre vazio de um preservativo E a certeza sem fé de não haver sequer dia seguinte.
Escrito por Cássia Fernandes às 21h32
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NATAL (poema datado - nem todos são - de janeiro de 2004) A Flavica, Paul Edward e Pauluxo
I
Foi preciso que eu me virasse do avesso para vestir o meu recomeço.
Hoje é que é Natal pra mim. É hoje que desejo embrulhar presentes para todos que amo e no entanto são tantos, que por mais que eu me repartisse eu seria pouca e se eu tentasse multiplicar-me, ainda mais tola ou louca.
Nem ao amor se pode controlar - nem a essa sede salgada e perpétua de afogamento - nem a ele, o medo, à morte, nem às nossas feridas ou aos nossos cortes: o nascimento, o tempo e o vento.
Às operações matemáticas da vida solucionáveis só por eleitos ou gênios: somar, diminuir, dividir, multiplicar, quem ser, onde estar, saber quando falar, saber quando calar. Ah, sabedoria....
Só o comandante sabe o rumo certo do navio. Para o comum dos marinheiros, resta apenas segurar firme no mastro, puxar juntos a corda das velas E içar! E enjôo, vertigem, vertigem! Vertigem do alto-mar!
Podemos, pequenos, apenas emprestar entre nós mesmos uma xícara de sensatez algum embornal de piedade, empréstimo sem compromisso, sem contrato, avalista ou prazo fixo. E freqüentemente, com calotes prováveis.
II
Hoje, felizmente, me chamo Natalina.
Natalina em Pontalina - a cidade onde nasci - era uma doida que andava com a filha atrás de si.
Eram tão loucas, mas pareciam tão felizes. E saíam recolhendo coisas, todas as que achavam, as inúteis e inúteis, as engraçadas e as sem graça, as xícaras quebradas e o desenho dos cacos.
Para que tanto entulho? - alguém perguntaria. Para o seu deleite, para seu orgulho. ou delírio? - alguém responderia. Mas quem sabia de fato?
Só que Natalina era louca. E nós não somos. Ou julgamos que não somos, nem um pouco. Eu não julgava a mim, mas aos outros. Loucos por amor, por dinheiro, por fama, pelo mundo inteiro!
Ah, Natalina é que era feliz com a filha atrás de si. e o saco sempre cheio de porcarias.
Minha tia quando foi casar a filha também virou uma natalina. Saíam doidas comprando coisas: o enxoval, a própria felicidade da noiva.
Eu também já fui assim. Mas não fui feliz. Eu ia atrás da vertigem de enfiar tudo no embornal ao mesmo tempo de querer ser ter tudo o que estava espelhado nas vitrines, flutuando nas telas do micro e da tevê, de desejar tudo para onde apontava meu pobre nariz, de escutar todas as vozes que diziam: Vai por aqui! Vai por ali! Esquerda, direita. Esquerda, direita. Volver! Para onde?!
Pobre nariz! Se eu nem sei onde está o meu próprio. Se nem eles ou vocês sabem. Como sair por aí a dar palpites sobre o que é justo ou largo, sobre o que é bom ou passado, sobre o que é alegre ou chorado?
Ah, vão vocês todos pastar! Vão comer capim no jantar! Pobre de mim! Pobre de ti!
Mas só agora, só agora assim, pobrezinha, coitadinha a que nada sabe, a que tudo ignora, a que não escolhe fazer escolhas, mas deseja escutar o que fala a bolha de sabão e coração que tem dentro de si, sou mais feliz, um pouquinho ao menos mais feliz.
Hoje eu morri? Nasci? Ou renasci? Parei. Me pari. Paris. Goiânia. Belo Horizonte. São Paulo. Qualquer lugar além, atrás dos montes... Lugar algum. Todo lugar.
O que importa é que a sabedoria, a felicidade e o bebê estão aqui, dentro de mim e de você e vão nascer.
Escrito por Cássia Fernandes às 22h46
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A ARTE NÃO COMPENSA
Amor pelos livros. Amor incompreendido em tantas línguas. Amor amaldiçoado por tantas pragas e intraduzíveis sortilégios.
Minha mãe me dizia das manhãs em que eu passava no quarto como um gato remelento no porão, querendo compor livros impossíveis. Que triste vida é essa, minha filha! Não bastasse não dar camisa de flanela a ninguém, nem casamento. E olhe o frio aí dentro. E olhe a palidez da pele. E lá fora o sol que brilha. O resto da gente brinca. E os escritores são esses senhores magros metidos em quartinhos escuros, enterrados sob papéis e roídos de rato e angústias. E essa papelada toda pra que serve? É tanto dinheiro consumido. E eu nem tinha visitado Balzac. E nem tinha aparecido ainda o fantasma que ela ameaçava!
Amor bandido! Amor não correspondido. Tome um Prozac. Torne-se médica.
Escrito por Cássia Fernandes às 22h05
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FRASES DESCONEXAS PARA UM DIA QUE COMEÇA
apenas com uma das pernas: a destra : "O meu partido é um coração partido" Os meus amigos é que estão no poder e esqueceram o motivo.
Você causa em mim certos transportes. Sorriso.
Os que fizeram o assalto ao trem pagador é que estão certos. É preciso ressuscitar os velhos métodos e o espiral dos cadernos. Há uma luz no fim do túnel e sacos repletos de boas moedas.
Nada como uma boa tarde de sexo ou de sono. A pele fica como banhada em leite de pedra ou de animais exóticos. Cleópatra e seus rinocerontes.
Por onde ando há sempre cães chorando em abandono, espiando pelas grades dos portões, implorando um dono. Decidi alimentá-los com meus restos, mas não carrego balas para agradar as crianças e minha alegria não dá pra remédio.
Minha bolsa é cheia de coisas imprescindíveis para uma vida desnecessária: sabonetes, pregos.
Vida longa ao Lula, porque outra vez não há!
Nunca derrapo contigo numa esquina. Vamos marcar um encontro no heliponto do centro administrativo.
Escrito por Cássia Fernandes às 22h21
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É só por isso que se chama Almofariz.
SANTOS NOMES EM VÃO
Como podem ser tão pouco criativos os que escolhem nomes para as lojas, as lanchonetes, os edifícios? Por que empregar o famigerado apóstrofo ‘s, contrabandeado do inglês, se há tantas formas mais poéticas nas papilas de nossa língua para indicar a que se destina a portinha espremida entre a loja de quase 2 e o consertador de sapatos? Quando ando pelas ruas ou atravesso uma daquelas pequenas cidades do interior onde mal se entra e já se sai, olho, curiosa e ávida, para os letreiros, os muros, as faixas. Foi enfiando o nariz onde devia que descobri o cheiro de esmalte e laquê do Salão de Beleza Plena. Que cabeleireiro inspirado, que manicura sensível terá mandado pintar, com capricho, na faixa desmazelada que procura gritar a existência anônima de um salãozinho no centro da cidade, um título tão magnífico? Que mulher não ingressará num tal lugar gata borralheira e não sairá coroada com uma bela chapinha?! Em que sensualidades estaria pensando o dono da lanchonete Benedita Gulosa em plena praça de deveres cívicos? De que tormentos terríveis deve padecer a alma do relojoeiro, que ao desentortar ponteiros impiedosos, olha o título estarrecedor e definitivo de seu estabelecimento? Relojoaria Eterna?! Ora – dirão as mulheres frívolas e ciosas de seu futuro – diamantes são eternos, não relógios! Lembro-me da indignação de meu professor de francês, mon père João que também ensinava latim, quando viu, no bairro de sua paróquia, o anúncio do motel La Viande. E o humor negro de quem deu ao açougue de Londrina o título de A Vaca Viúva? Ou àquele outro, que chamou sua casa de carnes de O Boi Casado. E que trocadilho bendito e irônico da Madeireira Tora Toralina na cidade de Goiás! Sem dizer do sarcasmo da Borracharia Prego Amigo. Certamente amigo do borracheiro onça. Os criativos denominadores parecem ser sempre um pouco sacrílegos. Abençoe a “buate São Benedito”, deve ter blasfemado, entre goles de pinga, o empresário da noite de Indiara. Condenada ao fogo do inferno já deve estar a alma do mineiro que criou o Bar Deputamadre no mais belo dos horizontes. Aliás, como os mineiros gostam de usar o santo nome de Deus em vão e como os goianos sabem ser rudemente realistas. Terá uma vida amarga o dono do Bar “Giló” – assim mesmo com “g” no Setor Aeroporto? Será um vencedor o ilustre senhor que administra o distinto boteco “Dirrubado” em Campinas? Certamente nosso amigo possui um humor peculiar ou sonha em morar nos Estados Unidos, para carinhosamente apelidar seu ganha-pão de Caldos WC. Ou terá apenas iniciais infelizes? Mas esses seres iluminados, que souberam tão bem escolher, é que nos fazem ainda ter esperança na utopia de um mundo mais franco nos seus nomes, mais original e poético. Um mundo em que não haja Igreja MA (do Ministério Águia) ou João’s Bar. Ruas e breves cidades amáveis com um empório de especiarias que se chame Almofariz...
Escrito por Cássia Fernandes às 02h31
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SOLIDÃO É QUANDO AS BATATAS BROTAM NA GELADEIRA
Solidão é o sal amargo dos olhos misturado ao sal temperado da cozinha enxugados com o pano de pia, cebolas cortadas de ironia por uma faca ceguinha, que não cortaria os meus pulsos nem se eu queria.
Solidão é quando as batatas brotam na geladeira. A farinha de validade vencida para bolos impossíveis, O açúcar que virou pedra e nem piquenique para as formigas de tantos cafés da manhã não adoçados e não servidos. Manhãs que começam ao meio dia - os olhos desesperançados para que, ao abrir, possam fechar-se minutos depois, e metade dele já tenha se esvaído. Estando em solidão, fazer uma sopa de meia, meia cenoura brotada, meia batata meio apodrecida, meio pão amanhecido, e servir fria a si mesma numa xícara.
Quando se vive assim sozinho, passa-se a viver porcamente,sem lavar os banheiros desmazelo, sapatos com o solado para cima, a escova cheia de cabelos e cestos transbordando de lixo, roupas pelo avesso, e vassouras atrás das portas para espantar visitas que não vêm nunca mesmo.
Quando se vive sozinho, aprende-se a estar em silêncio a maior parte do tempo e a ouvir a própria voz freqüentemente. E muitas vozes falam dentro e nem sempre, o que é pior, é com a gente.
Escrito por Cássia Fernandes às 23h08
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Quem com criança brinca acorda molhado – diz o ditado.
Se eu disso lembrasse, ao dormir com você, com prazer te ensinava, com quantas fraldas se faz um bebê.
Escrito por Cássia Fernandes às 00h46
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SOFRER PARA SER BELA
Amigo, nesta era de analgésicos e em que os anestesistas gerais têm a mais bem-sucedida das profissões, estejam eles atuando nos hospitais, nos canais de tevê ou nas livrarias, e em que se congelam felicidades no rosto com toxinas botulínicas, cheguei a uma filosófica conclusão: a dor é que é o santo remédio, quer dizer, o santo cosmético. E mais ainda, fazendo do sofrimento bom uso, confirmei também a máxima popular de que “azar no amor, sorte nos negócios”. Por mais que eu chorasse – e a dor fizesse inscrever no meu rosto dois trieiros de lágrimas, como as marcas de nascença de um Pierrô (e você o único a percebê-las, você e nem a dermatologista que, como os outros, costuma confundi-las com sardas ou manchas de sol) – sempre que me reencontravam os que havia muito não me viam, diziam: – Mas como você está bonita. Não mudou nada. O que você usa? Antes eu não lhes respondia, ou no máximo lhes sorria um sorriso amarelo de modéstia. Mas agora que Amor deu em mim o golpe de misericórdia, ouso reconhecer: – Ora! Uso Sofrer. E Sofrer, como você soube de primeira mão beijada, converteu-se de verbo no infinitivo a marca de creme para a beleza, ou melhor, a uma linha completa de cosméticos para conservá-la. Assim, hoje, quando me perguntam, respondo oferecendo-lhes uma série de produtos (Sofrer n° 1, Sofrer n° 2, Sofrer n° 3, até o 10), todos à base de uma mesma substância. Princípio ativo: dor de viver, dor de amar e não ser amado, angústia, sofrimento, artérias arrebentadas. Tão fácil e tão difícil obtê-la. É só chorar. E dado o meu súbito sucesso comercial, Chorar deve ser o próximo produto a ser lançado no mercado. Lágrimas em pequenos e preciosos frascos. E depois, talvez, um perfume com uma essência rara e o sugestivo nome de Soluço. Pura sinestesia! Sofrer não protege contra as rugas, é certo. Dir-se-á que até as provoca um pouco. Mas esse creme milagroso, além de nos fazer entrar em roupas onde antes não cabíamos, dá ao rosto aquele aspecto de humanidade presente nas mais piedosas imagens de Nossa Senhora. Faz pelo rosto humano o mesmo que a pátina faz pelo gesso. O amarelecer sujo do tempo descrito mais uma vez por Manuel Bandeira, falando da estatuazinha de gesso que no começo “mal sugeria imagem de vida”, mas que foi impregnada pela sua “humanidade irônica de tísico” e derrubada inadvertidamente “por uma mão estúpida”: “Hoje este gessozinho comercial/ É tocante e vive, e me fez agora refletir /Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”.
Escrito por Cássia Fernandes às 22h04
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